20/03/2026

As operações entre Botafogo e Lyon envolvendo Luiz Henrique, Almada e cia. que revelam o 'modo Textor' nas finanças

Por: João Pedro Fragoso
Fonte: O Globo
Documentos e contratos obtidos pelo GLOBO detalham operações milionárias
realizadas entre Botafogo e Lyon dentro da Eagle, sob o comando de John Textor,
nas quais o alvinegro vendia direitos econômicos de jogadores ao clube francês,
que pagaria a prazo; antecipava o recebimento de recursos à vista com
instituições financeiras (com abatimento); depois repassava boa parte desses
valores ao próprio Lyon. Neste sistema, a dívida das transferências passava a ser
do clube francês com as instituições financeiras.
A prática de antecipação de valores, comum no futebol para gerar liquidez, foi
usada para ajudar no fluxo de caixa dos clubes, principalmente do Lyon, que
enfrentava ameaça de rebaixamento pelo órgão fiscalizador do futebol do país
(DNCG).
O modelo não se restringiu ao caso Igor Jesus — alvo de ação judicial na
Inglaterra, como revelou a Bloomberg ontem —, mas também às transações
de atletas alvinegros como Luiz Henrique, Almada, Savarino e Jair. Destes,
apenas Almada chegou a vestir a camisa do Lyon.
De acordo com os documentos obtidos pela reportagem, o Lyon ficou como
devedor central de valores que somam a 125,2 milhões de euros (cerca de R$ 758
milhões), incluindo até vendas do goleiro Lucas Perri ao Leeds-ING e do atacante
sueco Amin Sarr ao Hellas Verona-ITA feitas pelo clube francês e que também
envolveram antecipações de recursos via Botafogo. Veja os detalhamentos dos
casos no decorrer da matéria.
Em uma das operações, a SAF do Botafogo chegou a dar a mesma parcela da
venda de Luiz Henrique como garantia para duas instituições financeiras. Ao
perceber o problema, exerceu uma cláusula de recompra em um dos contratos e
evitou a concretização da possível irregularidade.
Questionado pela reportagem, a SAF do Botafogo, através de nota (veja a
íntegra ao fim), argumentou que os clubes da Eagle operavam com gestão
centralizada de jogadores e finanças, o que teria contribuído para conquistas
esportivas. Afirmou ter transferido "cerca de 146 milhões de euros" ao Lyon e
recebido 42 milhões em contrapartida, “dentro de mecanismos financeiros
complexos que serão detalhados na esfera judicial”. A SAF Botafogo ainda
garante ter valores que permanecem "em disputa" com o Lyon e "pretende fazer
valer essas reivindicações em um tribunal competente".
— Mantenho minha confiança na nossa estratégia de negócios multiclubes, que
permitiu ao Botafogo se tornar campeão do Brasil, da América do Sul e indicado
à Bola de Ouro. Sem essas transações, nada disso teria sido possível— disse John
Textor ao GLOBO.
Confira abaixo como o detalhamento de cada uma das operações:
Luiz Henrique
O atacante Luiz Henrique, protagonista nas conquistas da Libertadores e do
Brasileirão em 2024, foi um dos primeiros a ser utilizado para este tipo de
operação. Em julho de 2024, Botafogo e Lyon acertaram a venda de 50% dos
direitos econômicos do jogador ao clube francês por 14,2 milhões de euros,
divididos em duas parcelas de 7,1 milhões. No mesmo mês, o Botafogo fez uma
antecipação com o fundo GCS e recebeu, com desconto, o valor de 11,6 milhões
à vista no dia 29.
Em setembro de 2024, o Lyon decidiu comprar os outros 50% restantes pelo
mesmo valor (14,2 milhões de euros), também dividido em duas parcelas. Desta
vez, o Botafogo conseguiu antecipar apenas uma dessas parcelas (a terceira no
total) junto ao mesmo fundo GCS, em acordo fechado em 7 de outubro. A quarta
parcela, portanto, seguia pendente.
Almada entra na história
No dia 10 de outubro de 2024, um mês após a estreia de Thiago Almada pelo
clube, o Botafogo vendeu o meia argentino ao Lyon por aproximadamente 27
milhões de euros, divididos em quatro parcelas: duas de 7,750 milhões (com
vencimentos em setembro de 2025 e 2026), uma de 6,825 milhões (março de
2027) e outra de 4,750 milhões (setembro de 2027).
Meses depois, em janeiro de 2025, já enfrentando dificuldades financeiras e
pressão de jogadores por atrasos em premiações, o Botafogo buscou novo
dinheiro no mercado. Fechou um empréstimo de 29,7 milhões de euros com o
banco Macquarie. Como garantia, prometeu receitas futuras: parcelas que ainda
tinha a receber pela venda de Luiz Henrique ao Lyon e parte do valor da venda
de Almada, que hoje já se encontra no Atlético de Madrid.
Risco de irregularidade é contornado
Foi nesse momento que foi percebido um problema. Os departamentos
jurídico e financeiro identificaram que uma dessas receitas já havia sido usada
antes — a terceira parcela de Luiz Henrique já tinha sido cedida como
garantia ao fundo GCS. Ou seja, o mesmo ativo estava sendo oferecido como
garantia duas vezes. Isso foi entendido como uma potencial irregularidade.
Para corrigir a situação, o Botafogo exerceu uma cláusula do contrato com o GCS
que permitia a recompra desses direitos até 15 de março de 2025. A SAF realizou
essa opção dentro do prazo, recuperou a terceira parcela de Luiz Henrique e
evitou a concretização do problema.
Paralelamente, o clube voltou ao mercado e fez uma nova antecipação com o
próprio GCS, agora usando valores da venda de Almada. Em acordo fechado em
10 de fevereiro de 2025, recebeu 11,5 milhões de euros. Mas nem todo esse
dinheiro ficou no Botafogo. Descontadas taxas e impostos, a maior parte foi
transferida ao Lyon, que enfrentava a grave crise financeira.
Veja a movimentação do dinheiro antecipado das vendas de Luiz Henrique e
Almada
Jogador
Valor (€) original da
operação
Valor (€) recebido
pelo Botafogo
Valor (€) transferido
para o Lyon
Luiz
Henrique
14,2 milhões 11,6 milhões 10 milhões
Thiago
Almada
11,6 milhões 9,1 milhões 8,8 milhões
Ambos 29,7 milhões 26,8 milhões 26,3 milhões
Total 55,5 milhões 47,5 milhões 45,1 milhões
Fonte: O GLOBO
Em 19 de maio de 2025, em razão das sanções esportivas impostas pela DNCG
da França que impedia o Lyon de registrar novos jogadores, Botafogo e o clube
francês acertaram que os direitos econômicos e federativos do argentino
retornariam para o alvinegro pelo mesmo valor da venda de 2024, de 27 milhões
de euros, e também em quatro parcelas. Dois meses depois, em julho, Almada foi
vendido pelo Botafogo ao Atlético de Madrid. Os valores e moldes da negociação
não foram divulgados.
Operação Igor Jesus
Lyon tem dívida pelo atacante que nunca jogou pelo clube
No caso de Igor Jesus, o Botafogo acertou a venda ao Lyon por 35 milhões de
euros. Para não esperar o pagamento parcelado, o clube fez mais uma
antecipação, desta vez com o fundo PRPF LLC. O alvinegro recebeu 31,4 milhões
de euros na operação e repassou 18,4 milhões de euros aos franceses.
Veja a movimentação do dinheiro antecipado da venda de Igor Jesus
Jogador
Valor (€) original da
operação
Valor (€) recebido pelo
Botafogo
Valor (€) transferido
para o Lyon
Igor
Jesus
35 milhões 31,4 milhões 18,4 milhões
Fonte: O GLOBO
O Lyon, porém, não cumpriu sua parte no acordo. O clube francês deixou de
pagar uma parcela de 14,3 milhões de euros ao fundo PRPF, que venceu em 26
de novembro de 2025, o que gerou a ação judicial revelada pela Bloomberg.
Posteriormente, Igor Jesus acabou sendo vendido ao Nottingham Forest-ING por
19 milhões de euros — valor 16 milhões de euros abaixo do que aquele que havia
sido usado como base na operação entre Botafogo e Lyon.
Operações Savarino e Jair
Savarino e Jair também entraram nesse modelo. O meia e o zagueiro foram
vendidos ao Lyon por 7,6 milhões e 20,9 milhões de euros, respectivamente. O
Botafogo, mais uma vez, fez a antecipação do recebimento (21,8 milhões) em
uma operação conjunta e repassou 12,5 milhões ao Lyon.
Veja a movimentação do dinheiro antecipado da venda de Savarino e Jair
Jogador
Valor (€) original da
operação
Valor (€) recebido pelo
Botafogo
Valor (€) transferido
para o Lyon
Savarino 7,6 milhões
Jair 20,9 milhões
Total 28,5 milhões 21,8 milhões 12,5 milhões
Fonte: O GLOBO
Assim como em outros casos, com exceção de Almada, os dois jogadores nem
chegaram a atuar pelo clube francês. Savarino permaneceu no Botafogo (antes
de seguir para o Fluminense), enquanto Jair foi vendido ao Nottingham Forest
por 11 milhões de euros, cerca de 10 milhões a menos do que o valor anterior da
negociação com o Lyon.
Esse valor seria pago de forma parcelada pelo Nottingham Forest, mas houve um
acordo diferente: o clube inglês depositou imediatamente 23 milhões de euros
ao Botafogo. Esse montante incluía 19 milhões da venda de Igor Jesus, 1 milhão
da negociação de Cuiabano e 3 milhões referentes a Jair.
A ideia era compensar valores de outras operações entre os clubes, incluindo
negociações envolvendo o goleiro John e ajustes no pagamento da contratação
de Danilo. A venda de Jair foi feita no dia 4 de junho. No mesmo dia, o Botafogo
recebeu os 23 milhões de euros do Nottingham Forest e, no dia seguinte, enviou
25,5 milhões de euros ao Lyon na forma de empréstimo.
Velho conhecido
Ainda houve operações relacionadas às vendas do goleiro Lucas Perri — que
ainda tinha 50% dos direitos econômicos ligados ao Botafogo — ao Leeds-ING e
do atacante sueco Amin Sarr ao Hellas Verona-ITA. Por mais que a dupla estivesse
atuando pelo clube francês, as quantias das transações foram encaminhadas
inicialmente para os cofres alvinegros.
No caso de Sarr, o Lyon até tentou em um primeiro momento realizar a operação
de antecipação dos recursos. Sem sucesso, optou por fazer a transação via
Botafogo. Já em relação a Lucas Perri, o clube francês exerceu a opção de compra
dos 50% de mais-valia por 3,3 milhões de euros (ao todo, o alvinegro recebeu 6,5
milhões de euros pelo goleiro) para, posteriormente, vendê-lo ao Leeds-ING por
16 milhões de euros (R$ 103,89 milhões) e ficar com a quantia completa.
Ao todo, as antecipações de Perri e Sarr foram fechadas em 3,1 milhões de euros
cada, totalizando, aproximadamente, 6,2 milhões de euros. Desse montante, o
Botafogo recebeu 5 milhões de euros.
O fluxo do dinheiro
Só nas operações envolvendo Luiz Henrique, Almada, Igor Jesus, Savarino e Jair,
identificadas pela reportagem, foram antecipados, por parte do Botafogo, 119
milhões de euros (cerca de R$ 720,2 milhões). Desse montante, caíram de forma
líquida nos cofres da SAF alvinegra 100,7 milhões de euros (aproximadamente R$
609,4 milhões). Segundo os documentos, 76 milhões de euros (R$ 460 milhões)
foram repassados ao Lyon. Por outro lado, o clube francês foi oficializado como
o devedor operacional de todas as operações, que, somadas às antecipações de
Perri e Sarr, totaliza 125,2 milhões.
Leia a nota completa da SAF Botafogo:
“Antes do descumprimento dos acordos de empréstimo interclubes, legalmente
vinculantes, pela atual administração do Olympique Lyonnais, os clubes da Eagle
Football operavam com uma gestão centralizada de suas atividades esportivas -
tanto no que diz respeito a jogadores quanto às finanças - o que contribuiu para
grandes conquistas de todas as equipes.
Os detalhes dos nossos acordos de gestão de caixa são bastante complexos e serão
apresentados de forma mais completa no foro jurídico adequado. Em síntese, a SAF
Botafogo efetuou transferências de cerca de 146 milhões de euros ao Olympique
Lyonnais e recebeu, em contrapartida, 42 milhões de euros.
A SAF Botafogo também arrecadou receitas significativas relacionadas às
transferências de jogadores cujos direitos podem pertencer ao OL, embora tais
valores permaneçam em disputa com os balanços publicados pelo OL. A SAF
Botafogo pretende fazer valer essas reivindicações em um tribunal competente,
sendo que os valores líquidos esperados são significativamente favoráveis à SAF
Botafogo”